Depois do primeiro ano, muita gente espera que o desenvolvimento desacelere. Acontece o contrário: o segundo ano costuma ser um dos períodos de mudança mais intensa. O bebê que ensaiava os primeiros passos começa a explorar o mundo em pé, as primeiras palavras viram frases e aparece uma vontade nova de fazer as coisas sozinho.
Resposta rápida: no segundo ano de vida, o desenvolvimento do bebê continua a avançar em várias frentes ao mesmo tempo: o movimento fica mais seguro, a linguagem cresce e a autonomia aparece, muitas vezes junto com as primeiras "birras" (um termo de que não gosto, mas que é amplamente aceito e usado). Cada criança tem o seu ritmo, e uma faixa de variação entre elas segue esperada. O que orienta o acompanhamento não é uma data exata no calendário, e sim a sequência das conquistas e a presença de alguns sinais que valem uma conversa com o pediatra.
O que muda dos 12 aos 24 meses
É neste período que muitas crianças deixam de engatinhar como principal forma de se locomover e passam a andar com firmeza, e depois a subir, descer, agachar e correr. A linguagem, que começava com poucas palavras, ganha ritmo, e surgem as primeiras combinações de duas palavras. Junto com isso vem a autonomia: a criança quer segurar a colher, escolher, decidir. É também quando aparecem as primeiras "birras", que fazem parte desse amadurecimento e não são, por si só, um problema de comportamento.
Nada disso acontece em um dia nem na mesma idade para todas as crianças. O segundo ano é um período, não uma data.
O desenvolvimento continua a acontecer em várias frentes
Como no primeiro ano, é útil observar o desenvolvimento por áreas, lembrando que, na vida real, elas caminham juntas:
- Motor grosso (postura e movimentos amplos). Andar com mais firmeza, agachar para pegar um objeto e voltar a ficar em pé, subir e descer degraus com apoio e, mais adiante, começar a correr e a chutar uma bola.
- Motor fino adaptativo (coordenação das mãos). Empilhar objetos, encaixar peças grandes, virar as páginas de um livro, rabiscar com um giz e levar a colher à boca com mais controle.
- Linguagem. Das primeiras palavras com sentido à combinação de duas palavras ao longo do período; entender e atender pedidos simples; apontar tanto para pedir quanto para mostrar algo que chamou a atenção.
- Pessoal social (interação com as pessoas e com o meio). Imitar o que os adultos fazem, começar a brincar de faz de conta, demonstrar afeto, estranhar e, ao mesmo tempo, buscar a própria autonomia.
Um avanço costuma puxar o outro. A criança que anda com segurança, por exemplo, alcança objetos antes fora do campo de visão, e isso costuma movimentar também a linguagem e a curiosidade.
"Saltos de desenvolvimento": o que o termo quer dizer
É comum as famílias ouvirem falar em "saltos de desenvolvimento" e procurarem calendários que prometem prever, semana a semana, quando a criança vai mudar ou ficar mais manhosa. Vale separar o que se observa do que é apenas rótulo.
O que se observa é que o desenvolvimento não é uma linha reta: há períodos de avanço mais rápido e períodos de aparente pausa. Isso, porém, é diferente da ideia de "saltos": não há evidência científica de que esses saltos aconteçam como um fenômeno definido e previsível, que permita antecipar, em um calendário fixo, a semana em que a criança vai mudar ou ficar mais irritada. O que importa para a família não é acertar a semana, e sim acompanhar se a criança segue conquistando habilidades novas e mantendo as que já tinha.
A variação entre as crianças segue esperada
Duas crianças saudáveis podem alcançar a mesma conquista em momentos diferentes do segundo ano, e isso não quer dizer que uma esteja à frente da outra. Algumas falam cedo e andam mais tarde, outras fazem o caminho inverso. O que a pediatria observa com mais atenção é a sequência e a continuidade. Quando as conquistas acontecem dentro dessa faixa esperada, falamos em desenvolvimento típico; quando fogem dela de forma consistente, falamos em desenvolvimento atípico, que merece um olhar mais atento do pediatra, sem que isso seja, por si só, um diagnóstico.
Por isso, comparar o seu filho com outra criança da mesma idade costuma gerar mais angústia do que informação. A caderneta da criança e as consultas de rotina existem para acompanhar esse percurso de perto.
Quando vale conversar com o pediatra
Alguns sinais merecem uma conversa. Não para alarmar, e sim porque, quando são observados cedo, há mais tempo para entender o que está acontecendo:
- A criança perde uma habilidade que já tinha, como deixar de falar palavras que já dizia ou de andar.
- Não anda sozinha ao longo do segundo ano.
- Não fala nenhuma palavra com sentido nem tenta se comunicar por gestos ao longo do período.
- Não entende pedidos simples do dia a dia.
- Não aponta para mostrar algo nem demonstra interesse em compartilhar a atenção.
- Mostra pouco contato com as pessoas ao redor ou evita o olhar de forma consistente.
Observar um desses pontos não significa, por si só, um diagnóstico. Significa que vale levar a observação à consulta, onde o pediatra avalia o conjunto e, quando há necessidade, encaminha para avaliações complementares.
O acompanhamento de rotina no segundo ano
No segundo ano, as consultas de rotina seguem acompanhando crescimento, desenvolvimento, alimentação, sono e vacinas, e abrem espaço para as dúvidas próprias da fase, como as birras, o desfralde mais adiante e o uso de telas. É nesse acompanhamento contínuo que o pediatra percebe cedo o que foge do esperado e orienta a família com calma.
A Dra. Clarissa Archanjo acompanha crianças nessa fase de forma presencial, na Vila Mariana, em São Paulo, e em São Caetano do Sul, e também por teleconsulta. O atendimento é particular, com tempo para ouvir a família e acompanhar cada etapa.
Perguntas frequentes
Meu filho tem mais de um ano e ainda não anda. Devo me preocupar?
Nem sempre. Existe uma faixa esperada para a criança começar a andar, e não uma data única. O pediatra avalia a sequência do desenvolvimento como um todo, e não apenas um marco isolado. Na dúvida, vale levar a observação à consulta.
Com quantas palavras meu filho deveria falar no segundo ano?
A linguagem avança de forma gradual ao longo do período, das primeiras palavras à combinação de duas delas. Mais importante do que contar palavras é observar se a criança entende o que se fala, tenta se comunicar e amplia o vocabulário com o tempo.
As "birras" são normais?
Sim. As primeiras birras fazem parte do amadurecimento e do início da autonomia. O que a consulta ajuda a entender é a melhor forma de lidar com elas em cada família, sem transformar a fase em um problema.
Os "saltos de desenvolvimento" existem mesmo?
Não há evidência científica de que os "saltos" aconteçam como um fenômeno definido e previsível. O que existe é um desenvolvimento em ritmos diferentes, com fases de avanço mais rápido e fases de pausa, e isso é esperado. O acompanhamento olha a trajetória, não uma data no calendário.
Fontes consultadas
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Documentos científicos sobre vigilância e acompanhamento do desenvolvimento infantil.
- Ministério da Saúde. Caderneta da Criança e materiais de vigilância do desenvolvimento na atenção básica.
- Academia Americana de Pediatria (American Academy of Pediatrics). Recomendações sobre vigilância e triagem do desenvolvimento (developmental surveillance and screening) e supervisão de saúde da criança (Bright Futures).
